Delegation of the European Union 
to the United States

Tiremos o máximo partido deste novo capítulo nas relações UE-EUA

09/11/2020 - 17:42
From the blog

9.11.2020 - Blogue do VP/AR – A vitória de Joe Biden como presidente eleito foi acolhida calorosamente na Europa. Importa agora aproveitar as oportunidades que esta vitória nos oferece para reconstruir a cooperação UE-EUA. A nova liderança dos EUA está pronta para restabelecer a parceria, e a UE, por seu turno, deverá preparar-se para reforçar o seu contributo. O mundo precisa de Estados Unidos dispostos a escutar e de uma Europa capaz de agir.

“A nova liderança dos EUA está pronta para restabelecer a parceria, e a UE, por seu turno, deverá preparar-se para reforçar o seu contributo.”

A vitória eleitoral de Joe Biden e de Kamala Harris foi celebrada com entusiasmo, como testemunham as imagens. Não é de estranhar, pois estas não foram “eleições normais”. Muito estava em jogo, para o país e o seu papel e estatuto mundial e mesmo para o destino da política democrática em todo o mundo. Durante quatro dias, a população conteve a respiração enquanto eram contados os votos, no que foi uma corrida muito renhida. Como tantos milhões em todo o mundo, acompanhei as últimas notícias, de hora a hora.

Apesar dos enormes desafios e divisões societais internos, uma das qualidades mais fortes da América tem sido a sua capacidade de renovação democrática. Foi exatamente isso que testemunhámos a semana passada: o sistema funcionou.

Isto diz muito sobre o papel único dos EUA. Trata-se de um país muito poderoso, que encarna também uma narrativa poderosa: uma república democrática fundada por imigrantes em fuga à perseguição ou à procura de uma vida melhor. Apesar dos enormes desafios e divisões societais internos, uma das qualidades mais fortes da América tem sido a sua capacidade de renovação democrática. Foi exatamente isso que testemunhámos a semana passada: o sistema funcionou.

Em diplomacia, é prática comum evitar manifestações de preferência política. No entanto, de acordo com as sondagens, muitos europeus congratulam-se com o facto de a maioria dos americanos ter votado a favor da mudança. Não é segredo que os últimos quatro anos foram complicados para as relações entre a UE e os EUA, marcadas por inúmeras divergências políticas. Assistimos, inclusivamente, à erosão de alguns dos princípios que considerávamos pedras basilares da parceria transatlântica, e, por vezes, até ao esvaziamento da sua substância.

O presidente eleito Biden declarou claramente o seu empenho em restaurar a unidade e o respeito das normas e instituições democráticas, tanto a nível nacional como internacional. Congratulamo-nos com isso, tal como com as garantias que deu de querer trabalhar com os aliados numa base de verdadeira parceria.

O presidente eleito Biden declarou claramente o seu empenho em restaurar a unidade e o respeito das normas e das instituições democráticas, tanto a nível nacional como internacional. Congratulamo-nos com isso, tal como com as garantias que deu de querer trabalhar com os aliados numa base de verdadeira parceria. Para a UE, os EUA são o mais importante parceiro e aliado e cremos que esta perceção é recíproca. Partilhamos uma longa história de trabalho conjunto, baseado em valores comuns. Congratulamo-nos, portanto, com a oportunidade de trabalhar mais uma vez com um presidente dos EUA que não nos considere um “inimigo” ou acredite que a UE tenha sido “criada para se aproveitar dos EUA”.

Estamos prontos a dar o nosso contributo para melhorar a cooperação. A fim de restabelecer a cooperação entre a UE e os EUA, é necessário fazer arrancar o “motor”. Mais especificamente, é necessário voltar a um verdadeiro diálogo, restabelecer o compromisso de formular estratégias conjuntas sempre que possível e estarmos dispostos a dotá-las de recursos.

Devemos sobretudo evitar um debate estéril, assente numa falsa premissa: optar por uma postura “transatlântica” ou “europeia”. No meu entender, investir numa Europa forte e capaz significa também investir numa parceria transatlântica revitalizada.

 

Devemos sobretudo evitar um debate estéril, assente numa falsa premissa: optar por uma postura “transatlântica” ou “europeia”. No meu entender, investir numa Europa forte e capaz significa também investir numa parceria transatlântica revitalizada. Com uma administração Biden, ambas são faces de uma mesma medalha.

São muitos os domínios que exigem a estreita cooperação entre a UE e os EUA. Podemos já congratular-nos com a intenção declarada do presidente eleito de voltar a participar em importantes iniciativas multilaterais, como o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, o acordo nuclear com o Irão e a Organização Mundial da Saúde. O mesmo se pode dizer da sua intenção declarada de continuar a adotar uma postura construtiva relativamente a questões comerciais bilaterais, mas também na Organização Mundial do Comércio, incluindo o importante sistema de resolução de litígios. Em cada um destes domínios, a Europa deverá apoiar e facilitar um regresso harmonioso à mesa das negociações e utilizá-lo como trampolim para uma ação conjunta.

Podemos igualmente antever o interesse da futura administração Biden por uma estreita cooperação relativamente à China e aos desafios que coloca em termos de práticas comerciais desleais, de segurança e de outras questões que são motivo de preocupação para ambas as partes. A formulação de uma posição coerente e sólida relativamente à China está no topo da agenda de Washington e concita um acordo bipartidário. Estamos preparados e podemos esperar que o diálogo UE-EUA sobre a China, que acabamos de lançar no mês passado, seja prosseguido com renovada energia pela próxima administração.

 

Uma Europa capaz e com uma orientação estratégica é o melhor parceiro para os EUA – e corresponde também às necessidades da própria Europa.

 

No que diz respeito à NATO e ao “acordo” de segurança transatlântica, esperamos contar com o novo presidente para se mostrar firme no seu compromisso para com a aliança, coerente com o seu percurso ao longo de décadas. Contudo, tal como salientado por várias administrações dos EUA, tal implica a necessidade de a Europa melhorar o seu desempenho e assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança. Os EUA apoiarão uma política comum de segurança e defesa europeia que seja dotada dos recursos adequados e que permita à Europa fazer face às ameaças à segurança, nomeadamente na nossa vizinhança. Isto corresponde também muito ao nosso interesse.

Em suma, uma Europa capaz e com orientação estratégica é o melhor parceiro para os EUA – e corresponde também às necessidades da própria Europa. É por esta razão que temos de prosseguir o reforço da autonomia estratégica da Europa, ou seja, da sua capacidade de agir e de se defender eficazmente ela própria. Os últimos quatro anos foram reveladores e a COVID-19 acentuou a necessidade de assumirmos a responsabilidade pela nossa própria segurança e de darmos resposta a outras vulnerabilidades, norteados pelo imperativo de reforçar a nossa autonomia estratégica.

Há muitos outros domínios da política externa que se revestem de interesse comum para a UE e os EUA: a Rússia e os países da Vizinhança Oriental, a Líbia e a região do Médio Oriente e do Norte de África, os Balcãs e a Turquia/Mediterrâneo Oriental. Mas também em horizontes mais alargados: o Afeganistão, os mares da China Meridional e Oriental, a Venezuela e outras paragens. Acrescem os já não recentes desafios, como as ameaças híbridas, a desinformação ou os aspetos de segurança da inteligência artificial e da 5G. A lista é longa, continua a crescer e as necessidades tornam-se urgentes.

Nos próximos dias e semanas, a UE entrará em contacto com a futura administração para analisar a melhor forma de colaborar. Importa ter presente que a sua primeira prioridade será de ordem interna, nomeadamente combater a pandemia e as suas consequências económicas e sanar as enormes divisões do país. Para ilustrar este último ponto, no momento em que escrevo este texto, o presidente Trump ainda não reconheceu a sua derrota. De qualquer forma, o presidente eleito Biden poderá ter de trabalhar com um Senado controlado pelo Partido Republicano. Tal poderá ter impacto na sua liberdade de manobra, especialmente no domínio da política externa.

 

Enquanto os nossos parceiros americanos se concentram na transição, deveremos centrar-nos nas nossas expectativas e no que a UE pode oferecer.

 

Concluindo: congratulo-me com o facto de os EUA terem eleito uma nova liderança, numa plataforma de mudança e estarem empenhados em trabalhar com os aliados democráticos. Enquanto os nossos parceiros americanos se concentram na transição, deveremos centrar-nos nas nossas expectativas e no que a UE pode oferecer. Os dirigentes e os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE debaterão a forma de tirar o máximo partido deste novo capítulo que agora se inicia. Mãos à obra!

 

 

 

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