Delegation of the European Union to Argentina

Começa a presidência de Joe Biden: um recomeço para os EUA, mas também para as relações transatlânticas

22/01/2021 - 11:54
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22/01/2020 – Blogue do AR/VP – A tomada de posse de Joe Biden abre em boa hora um novo capítulo nas relações UE-EUA. Como assinalado pelo presidente Joe Biden, há muita coisa a reparar e a reconstruir, tanto no país como no estrangeiro. Mas este é sobretudo um momento de oportunidade. Nós, UE, estamos prontos a redinamizar a nossa parceria, tão importante nesta altura de transformações tumultuosas a nível mundial.

 

 

À semelhança de milhões de pessoas em todo o mundo, acompanhei o discurso de tomada de posse do presidente Joe Biden. Naturalmente, o presidente centrou o seu discurso sobretudo na forma de sarar as feridas de uma nação dividida, de reaproximar os americanos e de fazer face à crise pandémica reconstruindo melhor. No entanto, olhando para lá do horizonte da América, anunciou também que os EUA iriam "liderar, não só pelo exemplo do nosso poder, mas também pelo poder do nosso exemplo" e comprometeu-se a "restabelecer as nossas alianças e voltar a dialogar com o mundo".

 "Mais do que qualquer outra relação, a parceria transatlântica moldou as relações internacionais e a ordem mundial. É a nossa relação mais estratégica."

A UE está pronta a fazer a sua parte: temos uma oportunidade única de voltar a trabalhar em conjunto para enfrentar uma série de desafios mundiais. Mesmo durante a turbulência e os desafios da administração Trump, uma verdade insofismável continuou a transparecer: a parceria transatlântica, que, mais do que qualquer outra relação, moldou as relações internacionais e a ordem mundial. É a nossa relação mais estratégica, indispensável não só para a segurança e a prosperidade na região transatlântica, mas também para suster uma ordem mundial assente na democracia, no Estado de direito e no multilateralismo.

"Voltar a fazer do multilateralismo uma força"

O presidente sublinhou que os EUA "serão um parceiro sólido e de confiança na defesa da paz, do progresso e da segurança". A Europa quer que o seu parceiro mais próximo volte a sentar-se à mesa das negociações mundiais. A UE e os EUA devem rumar na mesma direção a fim de resolver o número crescente de conflitos e tensões geopolíticas, definir padrões e normas comuns para o século XXI e trabalhar na conceção e consolidação do sistema multilateral. Estou ansioso por trabalhar com o secretário de Estado Antony Blinken, que também já vaticinou uma nova era de cooperação internacional. Vamos trabalhar em conjunto para voltar a fazer do multilateralismo uma força.

Para operar transformações a nível mundial, é fundamental reforçar a parceria transatlântica

Juntamente com a Comissão Europeia, apresentei uma "agenda UE-EUA para uma mudança a nível mundial" abrangente, que abarca quatro grandes domínios: liderança no plano ecológico, resposta à COVID-19 e saúde mundial, comércio e tecnologia e ainda ação e segurança à escala mundial.

"O mundo precisa da liderança americana e europeia para lutar contra a pandemia de COVID-19 e moldar a recuperação mundial."

Ao longo das próximas semanas e dos próximos meses, os esforços em ambos os lados do Atlântico centrar-se-ão, acima de tudo, em combater a pandemia de COVID-19 e garantir que, com solidez, se vá recuperando a nível mundial. O mundo precisa de liderança americana e europeia nesta batalha e é por isso que me congratulo com o facto de o presidente Joe Biden ter já assinado um decreto presidencial que revoga a decisão de o seu país se retirar da Organização Mundial da Saúde (OMS) e com o facto de os EUA terem ontem anunciado a sua adesão ao programa internacional da OMS de distribuição de vacinas, o Covax. Estamos desejosos de trabalhar com a nova administração para combater a pandemia e dar forma à recuperação, colaborando a todos os níveis: tanto entre governos como entre empresas, sociedades civis e cientistas. Esse processo está já em curso: a primeira vacina utilizada nos EUA e na UE é um "produto transatlântico", desenvolvido por um empreendimento conjunto entre uma empresa alemã e uma empresa americana.

Somo todos testemunhas da forma como a pandemia e a consequente recessão económica constituem também um terreno perfeito para alimentar o populismo, ideias radicais e, consequentemente, divisões e agitação social. O assalto de 6 de janeiro ao Capitólio foi um sinal de alerta para todos os defensores da democracia no mundo inteiro. Com efeito, à semelhança do que afirmou o presidente Joe Biden, "voltámos a aprender como a democracia é preciosa, mas também frágil". Temos de combater a desinformação e as desigualdades e de garantir que a nossa doutrina democrática prevaleça. É urgente que tanto a UE como os EUA tomem medidas concretas para travar o aumento do autoritarismo, da corrupção e das violações dos direitos humanos.

Os EUA voltam a aderir ao Acordo de Paris e a lutar contra a crise climática

A decisão do presidente Joe Biden de voltar a aderir ao Acordo de Paris sobre o clima é fundamental. Trabalhar em conjunto para vencer a crise climática é um dos nossos objetivos prioritários: os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE e o meu colega e vice-presidente executivo Frans Timmermans reuniram-se já hoje por videoconferência com o novo enviado dos EUA para o Clima, John Kerry, para debaterem a forma como a UE e a nova administração norte-americana podem de novo cooperar na luta mundial contra as alterações climáticas. 

"A decisão do presidente Joe Biden de voltar a aderir ao Acordo de Paris sobre o clima é fundamental."

A UE propõe que se institua uma "agenda verde" transatlântica abrangente no intuito de mobilizar uma ação climática mundial mais ambiciosa, começando por assumir o compromisso conjunto de alcançar a neutralidade climática até 2050. Para tal, é necessário, em particular: desenvolver medidas destinadas a criar uma aliança tecnológica "verde"; eliminar progressivamente os combustíveis fósseis; evitar fugas de carbono; desenvolver um quadro regulamentar global para o financiamento sustentável; ajudar os países mais pobres a adaptarem-se às alterações climáticas e a encabeçarem em conjunto a luta contra a desflorestação. Temos muito trabalho a fazer em conjunto e tempo nenhum a perder.

Ordem, paz e segurança mundiais

Não há dúvida de que os EUA desempenham um papel essencial na manutenção da paz e da segurança, e isso inclui também a segurança europeia. Com efeito, há muitos pontos do nosso continente e junto às nossas fronteiras, dos Balcãs Ocidentais ao Mediterrâneo Oriental, à Ucrânia e por aí fora, em que temos de trabalhar juntos para obter resultados sustentáveis. Enquanto parceiros mundiais, teremos de aprofundar o nosso diálogo e a nossa cooperação em todas os domínios, nomeadamente no que toca ao relançamento do acordo nuclear com o Irão e ao domínio mais vasto da não proliferação e do controlo do armamento. Além disso, em breve encetaremos um diálogo sobre todo o leque de questões relacionadas com a China. Analisaremos também as oportunidades de cooperação em todas as regiões do mundo onde os nossos interesses coincidam.

"Uma Europa forte e capaz não rivaliza com a aliança transatlântica, é condição prévia para a criar."

Muitas administrações dos EUA insistiram na necessidade de a Europa intensificar os seus esforços de defesa para melhor cuidar da sua própria segurança e agir como garante de segurança. Por conseguinte, é importante que tenhamos já começado a trabalhar ativamente no reforço das políticas, capacidades e operações de defesa da UE. Entre as nossas iniciativas emblemáticas no domínio da defesa contam-se agora a cooperação estruturada permanente (CEP), o Fundo Europeu de Defesa (FED) e a mobilidade militar. Com efeito, uma Europa forte e capaz não rivaliza com a aliança transatlântica, é condição prévia para a criar.

O reforço das capacidades de defesa dos Estados-Membros da UE cimenta a Aliança e contribui para que se partilhem encargos entre os dois lados do Atlântico. Uma Europa mais assertiva, mais capaz e resiliente é o melhor parceiro dos EUA. O reforço do papel da Europa em matéria de segurança permitirá cooperar melhor com os EUA quando for preciso combater os riscos atuais e futuros que se perfilem neste domínio. É evidente que muito temos a ganhar se estabelecermos com os EUA uma cooperação estreita, que permita fazer face aos desafios mais prementes em matéria de segurança, da cibersegurança às ameaças híbridas, à proteção das nossas infraestruturas críticas e às implicações das alterações climáticas em termos de segurança. Devemos certamente ser ambiciosos no que toca a este domínio.

Ao mesmo tempo que intensificamos a cooperação, não podemos esquecer que a experiência dos últimos quatro anos deixou marca na opinião pública europeia. De facto, como explicado num relatório do CERE (ligação externa) recentemente publicado, uma clara maioria de europeus considera agora que, mesmo durante a presidência de Joe Biden, os EUA estarão preocupados sobretudo em apaziguar as divisões internas e terão pouca capacidade ou vontade de ajudar a resolver problemas mundiais. Além disso, outros motivos implícitos – de ordem demográfica, económica e política – justificarão o facto de a trajetória histórica dos Estados Unidos e a da Europa poderem vir a divergir. Estamos, porém, cientes de que, pelo menos nos próximos quatro anos, haverá um presidente dos EUA que acredita em parcerias com os seus aliados democráticos. E não só sentimos apreço pelo facto de esta parceria ter sido restabelecida, reconhecemos também a sua necessidade.

Trabalhar em conjunto no domínio da tecnologia, do comércio e da normalização

As questões tecnológicas fazem agora parte da política externa. É por isso que a rápida evolução tecnológica a que assistimos nos dá a oportunidade de desenvolver uma "agenda estratégica conjunta de alta tecnologia" entre a UE e os EUA. Queremos cooperar na elaboração e aplicação de regras claras no que respeita à responsabilidade das plataformas em linha e das grandes empresas tecnológicas, colaborar em matéria de equidade fiscal e distorções do mercado e desenvolver uma abordagem normativa comum para o desenvolvimento futuro de tecnologias essenciais. É melhor que as nossas "democracias tecnológicas" procurem dar resposta a estes desafios antes que seja tarde demais.

Em suma, a lista de desafios que enfrentamos é longa. E, por vezes, perdurarão entre nós diferenças de pontos de vista. É normal. No entanto, com Joe Biden, o tom e a atitude são outros. Em diplomacia, isso é muito importante. É ao som da música que se dança, já reza a expressão francesa. Vamos deitar mãos à obra e reconstruir a nossa aliança em prol da democracia, da prosperidade, da segurança mundial e de um mundo melhor e mais estável.

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